856R e as suas alternativas

Na lista de linhas que a SPTrans pretende cortar, quando começar a reformulação das linhas prevista na licitação das linhas de ônibus da cidade, a 856R/10 Lapa-Socorro é uma das linhas que ganhou “destaque” nas redes sociais. Ela até ganhou um evento de “despedida” no Facebook chamado “Adeus, 856R – Busão da Balada” e o apelido de “Transiberiana”, provavelmente referente ao seu longo trajeto. Aliás, esse é justamente um dos motivos dos que defendem o seu corte.

Segundo dados do site da SPTrans, o tempo de viagem estimado nos dias úteis, no sentido Lapa-Socorro é de, em média, 135min. Aos finais de semana ele cai drasticamente para 94min aos sábados e 82min aos domingos e feriados. No sentido Socorro-Lapa os tempos são maiores: 149min nos dias úteis, 101min aos sábados e 89min aos domingos e feriados. A 856R transporta cerca de 22 mil pessoas por dia útil, mais do que o dobro de sua “concorrente” na maior parte do trecho, a 637P/10 Terminal Santo Amaro – Terminal Pinheiros, que transporta cerca de 11 mil pessoas.

A intenção da SPTrans é eliminar as sobreposições de linhas, principalmente daquelas que trafegam nos corredores. A 856R é sobreposta à linha 637P/10 Terminal Santo Amaro-Terminal Pinheiros. Ambas trafegam pelo corredor Santo Amaro-9 de Julho e pela Av. Brigadeiro Faria Lima. Em termos de engenharia de transporte, o conceito é correto. No entanto, a iniciativa peca por um problema: falta de estrutura.

856R no traçado lilás, mais ao alto; 199D no traçado azul, abaixo: para quem utiliza a 856R logo no seu início, na Lapa, a 199D não serve como opção.

Para subsitituir a 856R, a SPTrans indica três linhas, conforme a tabela que consta no endereço sptrans.com.br/novarede. São três linhas para três trechos diferentes: a linha 1.01.18 Vila Iório-Pinheiros (a atual 199D) entre a Lapa e o Terminal Pinheiros; a 2.30.07 Terminal Santo Amaro-Terminal Pinheiros (atual 637P); e, para o trecho entre Santo Amaro e Socorro, a 6.00.19 Socorro – Terminal Bandeira (atual 6414).

O maior problema dessa alternativa está no primeiro trecho. No sentido Terminal Pinheiros, a 199D não trafega pelas ruas Guaicurus, Faustolo, Crasso, Coroliano e Avenida Pompéia, além de por um trecho da Av. Dr. Arnaldo. Ela atenderia os usuários da 856R somente nos trechos da Av. Afonso Bovero e Rua Bruxelas. No sentido Lapa, a 199D não atende as mesmas vias da ida mais as ruas Venâncio Aires e Palestra Itália. Mas, curiosamente, passa próximo ao ponto final da 856R, na Rua Aurélia e por um trecho da Guaicurus.

Desembarque da 199D e embarque na 637P: integração, se não for feita no termina, custa uma caminhada e mais tempo de transbordo – logo, de viagem (imagem: Google Maps)

Outro problema é como será feita essa integração. Pelas conexões, o mais lógico seria integrar no Terminal Pinheiros, onde tanto a 199D quanto a 637P fazem ponto final. No entanto, esse trecho fica fora do itinerário da 856R, que segue pela Av. Brigadeiro Faria Lima a partir do Largo da Batata. Logo, o usuário vai perder muito tempo só com o transbordo. Já se ele optar por fazer a conexão fora do terminal, vai ter de caminhar muito já que as duas linhas não se cruzam. Descendo da 199D, no ponto da Parada Ferreira de Araújo – Ponto 2, na Rua Sumidouro, o usuário teria de caminhar, no mínimo, 400m até um ponto na Rua Paes Leme, onde para a 637P. Outra hipótese é o usuário a pegar uma terceira linha (ou quarta, se ele for até o Socorro) para fazer a conexão – algo que não é tão raro nessa nova rede. Ou seja, onde está o ganho de tempo?

E, para piorar, imagine fazer o usuário ter de baldear para, ainda, pegar o trânsito da Av. Brigadeiro Faria Lima que sequer tem preferência ao transporte coletivo? Existe uma faixa exclusiva mas de pouca serventia, já que são vários os veículos de passeio que precisam entrar nela para acessar ou sair de edifícios comerciais ou de conversões a direita. Há projeto para um corredor – inclusive é mencionado no edital – mas pouco foi falado a respeito.

Esta situação de integração pós-856R é um exemplo do que pode ser repetir em várias outras linhas. Sistemas de transporte funcionam bem onde há a devida estrutura. Curitiba é o local onde o sistema tronco-alimentador e o por conexões entre linhas funciona justamente porque há estrutura. Claro que o tamanho da cidade ajuda mas, se não houvesse corredores e terminais bem localizados (que seguem o trajeto da linha), os problemas paulistanos existiriam lá também. Já aqui? Temos poucos corredores e, agora, todos liberados para o tráfego de táxis em algumas faixas horárias. Essa é a forma de priorizar o transporte coletivo?

O que a SPTrans e a Secretaria Municipal de Mobilidade e Transportes deveria explicar é: haverá algo além desse simples corte de linhas? Enquanto o poder público achar que os problemas podem ser resolvidos simplesmente cortando linhas e sobreposições – como se o usuário gostasse de andar todo amassado em ônibus com ar condicionado – a população vai continuar não acreditando que soluções como esta resolvam o problema de mobilidade da cidade.

Lembramos que as alterações começarão a partir de seis meses depois de assinados os novos contratos de concessão. Elas levarão em torno de três anos para serem concluídas. Ou seja, é tempo suficiente para ouvir a população e arrumar todo este sistema – que já deveria, inclusive, estar melhor formatado.

José E. Sales

Estudante de jornalismo e um apaixonado por mobilidade urbana, especialmente por ônibus. Fale conosco: esales@circularavenidas.com.br

3 comentários em “856R e as suas alternativas

  • 9 de março de 2018 em 22:03
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    É um erro extinguir linhas tradicionais e bem conhecidas e assimiladas pela população e até por forasteiros em visitas esporádicas à capital paulista e em nome de uma suposta racionalização de linhas. Das 1337 linhas, 149 delas serão extintas e não duvido que outras o serão logo depois desta “primeira fase”. É IMPORTANTE toda cidade e capital ter várias linhas sobrepostas pois o OBJETIVO delas é fluir melhor a densidade de passageiros ajudando as linhas principais. Existem trechos essenciais onde deve existir sobreposição afim de auxiliar as linhas que vem de lugares mais distantes. De um modo geral as prefeituras racionalizam o máximo que podem através de seus departamentos ou secretarias de transporte e por isso o transporte que em muitas cidades já não é bom consegue piorar ainda mais.

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    • 2 de abril de 2018 em 18:33
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      Não há uma data específica. Segundo a prefeitura, a “reformulação” das linhas ocorrerá seis meses depois da assinatura dos contratos com as novas concessionárias. A previsão da assinatura dos novos contratos é para junho/2018. Com essas datas, a previsão é que a reformulação começará no começo de 2019.

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