Análise: Nova Rede da SPTrans

Dois meses, nove dias e um tabelão do Movimento Passe Livre (MPL) depois, a SPTrans divulga uma tabela consolidada da “Rede de Referência”, que consta no Anexo VIII do edital de licitação das linhas de ônibus de São Paulo. Nesse anexo é onde estão relacionadas as linhas da “Rede de Referência”, que são as que a SPTrans pretende implantar. E foi dele que o MPL retirou as informações que embasaram a sua lista.

A tabela da SPTrans, que pode ser acessada no endereço http://sptrans.com.br/novarede/, está disposta em um formato semelhante ao do MPL: Nº da Linha/Linha Atual/Área Atual, fechando a descrição das linhas atuais; e código da linha na Consulta Pública, nome da Linha e a descrição da linha que serve de opção e um campo para observações. No site, há uma tabela consolidada com 13 páginas e tabelas específicas por área. Tudo em PDF, sem mapas ou links para eles.

Itinerário da 2.30.04 Metrô Tamanduatei-Terminal Pinheiros. As indicações de vias da 2.30.04 (e das outras linhas da Rede de Referência) foram feitas através de consultas ao Olho Vivo e a aplicativos de celular a linhas existentes com itinerários semelhantes. Os mapas disponibilizados pela SPTrans não tem identificação das vias, apenas o desenho do trajeto. Esta linha tem boa parte do trajeto semelhante a da 5103/10 Terminal Sacomã-Moema.

A primeira linha que consultamos foi a 477A/10 Sacomã-Terminal Pinheiros, uma das linhas que estava com indicação incorreta na tabela do MPL. Nesta da SPTrans, há a notação “mantida” com a observação “apenas mudança de denominação”, alterada para 2.30.04 Metrô Tamanduateí-Terminal Pinheiros (a numeração não será esta, que é só para fins de identificação provisória da linha). Ou seja, nesta tabela a SPTrans repete o erro da tabela do MPL. As duas linhas são completamente diferentes. Enquanto a 477A atual, em seu sentido Pinheiros, segue via Rua Tabor, Av. Dom Pedro, Av. Lacerda Franco, Rua Vergueiro, Bernardino de Campos e Paulista, a linha 2.30.04 segue, segundo o mapa disponivel no Anexo III do Grupo Estrutural, constante no site da Consulta Pública, segue via Av. Dr. Gentil de Moura, Rua Loefgreen, Rua Pedro de Toledo e Av. Hélio Pelegrino. Ou seja, são duas linhas com trajetos completamente diferentes. E, no final das contas, não temos uma linha sugerida que, de fato, substitua a 477A em seu trajeto indicado. A que descobrimos, checando os mapas do Anexo III, é a 2.30.02 Terminal Sacomã-Terminal Lapa, que segue o mesmo trajeto da 477A até a Av. Paulista. Aliás, a 2.30.02 também está indicada para substituir a linha 874T/10 Ipiranga – Lapa.

Itinerário da 477A/10 Sacomã-Terminal Pinheiros que, segundo a SPTrans, será substituida pela 2.30.04 Metrô Tamanduatei-Terminal Pinheiros.

A 2.30.04 Metrô Tamanduateí-Terminal Pinheiros também aparece como substituta da 477P/10 Ipiranga-Rio Pequeno, sendo que também não guarda muita semelhança com ela. No trajeto da 477P/10, entre o Ipiranga e o Metrô São Judas, não há nenhuma sugestão de linha que possa atender essa ligação direta. A única observação é referente ao trecho da linha partindo do Rio Pequeno, onde é sugerida a linha 5.20.01 Jd. João XIII-Barra Funda. A única semelhança entre elas, e também a 477A, está no trecho que percorrem na Av. Brigadeiro Faria Lima: as três passam por toda a Avenida, da Rua Tabapuã até a altura da Estação Faria Lima.

Outra linha que consultamos foi a 576M/10 Vila Clara-Pinheiros. Na tabela da SPTrans a linha consta como “mantida”. No entanto, o trajeto apresentado é a da linha 3.06.20 Metrô Jabaquara-Pinheiros. Não há nenhuma observação sobre o trecho entre a Vila Clara e o Metrô Jabaquara. Logo, como a linha pode ser classificada como “mantida” se o itinerário foi seccionado?

Consultamos também duas linhas que foram recentemente encurtadas: 6338/10 Jardim Miriam-Parque Ibirapuera (que segue pelo Metrô Conceição e Av. Jabaquara) e 6366/10 Jardim Miriam-Parque Ibirapuera (que segue pela Av. Washington Luiz). As duas podem ser substituídas: a 6338/10 pela linha 3.06.14 Jardim Miriam-Metrô Ana Rosa (a atual 577T/10 Jardim Miriam-Metrô Ana Rosa) e a 6366/10 pela 3.06.15 Jardim Miriam-Terminal Bandeira (que parece ser a própria 6366/10 voltando a chegar até o centro, desfazendo o corte ocorrido em outubro passado). A 6338/10 está classificada como “mantida” mas sem nenhuma menção a trajetos que completem os itinerários seccionados.

Outra linha “mantida” mas em partes é a 475M/10 Jardim da Saúde-Terminal Amaral Gurgel. De acordo com a tabela, ela será substituída pela linha 4.02.02 Metrô Vila Mariana-Terminal Amaral Gurgel. Mas, de novo, não há menção sobre qual linha fará a ligação entre o Jardim da Saúde e o Metrô Vila Mariana.

E há um espaço também para sugestões de integração estranhas. A linha 647C/10 Terminal João Dias-Hospital das Clínicas é outra que a SPTrans pretende substituir. Ela atende a Avenida Brasil em toda a sua extensão. Segundo a tabela da SPTrans, as opções são seguir pela linha 1.04.08 Terminal Capelinha-Metrô Vila Mariana (atual 695T/10 Terminal Capelinha-Metrô Vila Mariana) até a estação Vila Mariana; a partir daí, reproduzimos a sugestão da tabela: “a ligação para o Hospital das Clínicas será mantida com a linha 1.04.08, seguida de transbordo com a linha 2.30.01, no Metrô Vila Mariana”. Essa 2.30.01 é uma linha nova chamada Metrô Barra Funda-Metrô Vila Mariana que, pelo mapa, seguirá pela Rua Sena Madureira, Avenida Brasil e Av. Paulo IV, não passando muito próximo às Clínicas. E, convenhamos, mesmo que passasse, o trajeto ficará muito maior do que o praticado pela 647C se for seguido à risca. É assim que querem diminuir o tempo de viagem do passageiro?

A divulgação desta tabela pela prefeitura facilita bastante a análise das linhas que estão sendo propostas. Há, de fato, muitos seccionamentos. Mas, como mostramos em alguns exemplos acima, não dá para levar ao pé da letra todos os “mantidos” publicados. Dentro destes, há muitos seccionamentos que não foram mencionados ou com alterações no itinerário original não mencionados. Além disso, há as linhas “mantidas” mas que são, na verdade, outras linhas – com trajetos completamente diferentes daquelas a que foram vinculadas. A impressão é que preferiram vincular todas as linhas novas a uma linha já existente, mesmo que não tenha a ver com ela – como foi o caso da linha Metrô Tamanduateí-Terminal Sacomã, que nada tem a ver com a 477A. Essa falta de precisão das informações e de mapas mais bem elaborados atrapalham a análise. Apesar disso, mantemos a recomendação de sempre comparar as tabelas com os mapas dos itinerários das linhas novas com as antigas. Os mapas estão disponíveis no Anexo III do site da Consulta Pública ( http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/transportes/edital/ ). Neste link, explicamos o procedimento de envio das sugestões à Prefeitura. É importante lembrar que estas alterações serão feitas em três fases, com início previsto para seis meses depois de assinados os contratos com as empresas vencedoras da licitação.

Desde o ano passado, a Secretaria de Mobilidade e Transportes salienta que precisa melhorar a comunicação com a população. Isso foi repetido em várias oportunidades mas não vemos evolução nessa postura. E, mesmo depois de várias entidades cobrarem uma documentação mais acessível ao cidadão, a SMT só veio a publicar os arquivos que comentamos hoje, a três dias do final da Consulta Pública, e depois do MPL ter publicado algo com base nos documentos que a própria SPTrans publicou. Postura que não facilita em nada a participação do cidadão no destino da cidade.

José E. Sales

Estudante de jornalismo e um apaixonado por mobilidade urbana, especialmente por ônibus. Fale conosco: contato@circularavenidas.com.br .

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